Esquemas de aterramento TN-C-S, TN-S e TT explicados de forma simples
Para onde vai a corrente de uma falta à terra, e o que faz o disjuntor desarmar a tempo? Quem decide é o esquema de aterramento. As letras decifradas, o que cada esquema faz numa falta, o PEN rompido e por que no TT tudo depende do DR.
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Duas casas podem ter o mesmo quadro, os mesmos disjuntores e os mesmos cabos e, mesmo assim, se comportar de um jeito totalmente diferente quando um aquecedor tem uma falta à terra. Numa, o disjuntor desarma em poucos milissegundos. Na outra, ele não desarma nunca, e a carcaça metálica do aquecedor fica energizada até um DR desligar. A diferença é o esquema de aterramento: como o condutor de proteção da instalação está ligado à fonte.
As letras
A NBR 5410, assim como a IEC 60364, nomeia os esquemas de aterramento com duas ou três letras.
- Primeira letra, a fonte: T (do francês terre, terra) significa que o ponto neutro do transformador está diretamente aterrado. I significa que está isolado da terra, ou aterrado por uma impedância alta.
- Segunda letra, as massas da instalação (partes metálicas que se pode tocar): T significa que estão ligadas a um eletrodo de aterramento próprio. N significa que estão ligadas por um condutor ao ponto neutro aterrado da fonte.
- Depois do hífen, só no TN: S significa que neutro (N) e condutor de proteção (PE) são separados; C significa que estão combinados num único condutor, o PEN.
TN-C-S se lê assim: fonte aterrada, massas ligadas ao neutro da fonte, com N e PE juntos numa parte do sistema e separados no resto.
TN-S: um condutor de proteção separado até a fonte
Um condutor de proteção separado vai do transformador até a instalação. N e PE são separados em todo lugar.
Numa falta à terra, a corrente sai pela fase, passa pela falta e volta ao transformador por um condutor metálico. A impedância do laço é pequena, a corrente é grande (muitas vezes centenas de ampères) e o disparador magnético do disjuntor atua quase na hora.
TN-C-S: junto na rede, separado na entrada
A rede traz um condutor combinado, o PEN, que na entrada da instalação (no padrão de entrada ou no quadro geral, junto ao eletrodo de aterramento) é separado em N e PE. Dali em diante, eles nunca mais podem ser unidos. O PEN da rede é aterrado em vários pontos.
Uma falta à terra se comporta como no TN-S: laço metálico, corrente grande, desarme rápido.
O ponto fraco é o próprio PEN. Se ele se rompe entre o transformador e a instalação, a corrente do neutro não tem outro caminho de volta a não ser pelo aterramento da instalação. As cargas “puxam” todo o sistema de PE em direção à tensão de fase, através da própria impedância: as lâmpadas ficam fracas ou apagam, e toda parte metálica aterrada da casa (e tudo o que estiver equipotencializado com ela) pode ficar perigosa ao toque. O DR não necessariamente percebe, porque as correntes de fase e neutro que passam por ele continuam iguais. Por isso o PEN é aterrado repetidas vezes e tem seção adequada.

TN-C-S: a fase encosta na carcaça metálica de um aquecedor. A corrente de falta volta pelo PE e pelo PEN, centenas de ampères, e o B16 desarma na hora.
TN-C: neutro e terra juntos até o aparelho
No TN-C, N e PE ficam combinados até a carga. É o que acontece quando alguém liga o terra da tomada no neutro, uma prática comum e perigosa em instalações antigas. Em circuitos terminais novos isso não é permitido: um condutor PEN precisa ter pelo menos 10 mm² de cobre, e um DR não funciona com ele, porque a corrente de falta volta pelo mesmo PEN que passa pelo DR.
TT: um eletrodo de aterramento próprio
No TT, a instalação tem seu próprio eletrodo de aterramento (hastes enterradas), com resistência RA. O neutro da concessionária é aterrado no transformador (resistência RB). Não há caminho metálico entre eles: a corrente de falta volta pela terra.
A terra conduz mal. Com os valores típicos que o WireWhy usa por padrão, RA = 100 Ω e RB = 10 Ω, numa rede de 127 V:
- corrente de falta ≈ 127 V ÷ (100 Ω + 10 Ω) ≈ 1,15 A;
- tensão na carcaça do aparelho com defeito ≈ 1,15 A × 100 Ω ≈ 115 V.
Em 220 V, as mesmas contas dão cerca de 2 A e 200 V. Um disjuntor de 16 A nunca desarma com 1 ou 2 A. A carcaça fica energizada indefinidamente, muito acima dos 50 V considerados o limite de tensão de contato. É por isso que uma instalação TT depende do DR: um DR de 30 mA vê mais de um ampère de corrente residual e abre em milissegundos. A condição a cumprir é RA × IΔn ≤ 50 V, então eletrodo e DR são escolhidos juntos.

TT: a mesma falta. A corrente precisa passar pelo solo, é pequena demais para desarmar o B16, e a carcaça fica com tensão perigosa. No TT, quem desliga essa falta é o DR.
Lado a lado
| TN-S | TN-C-S | TT | |
|---|---|---|---|
| O PE vem | da rede, condutor separado | da rede, separado do PEN na entrada | do eletrodo próprio |
| Corrente de falta à terra | grande | grande | pequena (alguns ampères) |
| Quem desliga | disjuntor ou fusível (DR como proteção adicional) | disjuntor ou fusível (DR como proteção adicional) | DR |
| Principal risco | cabos longos elevando Zs | PEN rompido | resistência do eletrodo; DR ausente ou defeituoso |
Os tempos máximos de seccionamento de cada esquema estão na NBR 5410 e dependem da tensão da instalação.
(O esquema IT, com a fonte isolada da terra, continua funcionando depois de uma primeira falta e é usado em salas cirúrgicas e em parte da indústria. Fica fora deste artigo.)
E no Brasil?
A NBR 5410 reconhece os esquemas TN-S, TN-C-S, TN-C, TT e IT. Qual se aplica depende da concessionária e do padrão de entrada; nas residências, o mais comum é TN-C-S, com o neutro aterrado no padrão e o PE distribuído a partir do quadro, ou TT, com eletrodo próprio. Se você não sabe qual é o da sua casa, um eletricista pode dizer e medir se o aterramento está bom.
Teste os três esquemas num só circuito
No WireWhy, o esquema de aterramento é uma configuração da alimentação: TN-C-S (padrão), TN-S ou TT, com Ze, RA e RB editáveis. Monte um circuito de tomada com disjuntor, coloque uma falta à terra na tomada e alterne entre os esquemas: no TN-C-S o disjuntor desarma na hora; no TT não, e o WireWhy mostra a tensão de contato nas massas. Acrescente um DR de 30 mA e o desligamento volta. Depois ative o PEN rompido na alimentação e veja o que acontece com as lâmpadas e com o PE.
Abra o WireWhy em wirewhy.com/pt-br. O lado do disjuntor está em Curvas B, C e D do disjuntor, e o do DR em Por que o DR desarma?