Curvas B, C e D do disjuntor: por que ele desarma, e por que às vezes não desarma quando deveria
O disjuntor tem dois disparadores: um lento, para sobrecarga, e um instantâneo, para curto-circuito. A letra antes da corrente nominal diz onde termina um e começa o outro. O que significam B16 e C16 e como escolher.
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Todo disjuntor DIN traz um código como B16 ou C10. O número é a corrente nominal em ampères. A letra é a curva de disparo, e ela responde a uma pergunta que quase ninguém faz: quão grande a corrente precisa ser para o disjuntor abrir na hora?
Dois disparadores, um contato
Dentro do disjuntor, dois mecanismos independentes agem sobre o mesmo contato.
- O disparador térmico é uma lâmina bimetálica aquecida pela corrente. Ela se curva devagar e desarma o disjuntor por sobrecarga: um pouco de corrente a mais por bastante tempo. Quanto maior a sobrecarga, mais rápido.
- O disparador magnético é uma bobina. Quando a corrente salta para muitas vezes a nominal, como num curto-circuito, a bobina abre o mecanismo em poucos milissegundos.
O térmico protege o condutor contra aquecimento lento. O magnético cuida das correntes de falta que o danificariam em segundos.
O que a corrente nominal promete
Para disjuntores conforme a NBR NM 60898 (equivalente à IEC 60898-1), o lado térmico é definido por três pontos. In é a corrente nominal:
| Corrente | O que o disjuntor deve fazer |
|---|---|
| 1,13 × In | Não desarmar durante pelo menos uma hora |
| 1,45 × In | Desarmar em até uma hora |
| 2,55 × In | Desarmar entre 1 e 60 s (até 120 s acima de 32 A) |
Ou seja, um B16 deve aguentar 18 A por pelo menos uma hora e desarmar com 23 A em até uma hora. Essa lentidão é proposital: a chaleira e o aquecedor ligados juntos por cinco minutos não o desarmam, e nem deveriam.
O 1,45 não é acaso. A NBR 5410 pede que a corrente que garante a atuação do dispositivo seja no máximo 1,45 vez a capacidade de condução de corrente do condutor (Iz). Para um disjuntor, isso vira uma regra simples: IB ≤ In ≤ Iz. A corrente de projeto do circuito não passa da nominal do disjuntor, e a nominal do disjuntor não passa da capacidade do cabo.
As curvas: onde começa o “instantâneo”
A letra diz em que faixa o disparador magnético com certeza atua:
| Curva | Disparo instantâneo entre | Para 16 A | Uso típico |
|---|---|---|---|
| B | 3 e 5 × In | 48 a 80 A | Residências, tomadas, iluminação, circuitos longos |
| C | 5 e 10 × In | 80 a 160 A | Motores, grupos grandes de luminárias, correntes de partida |
| D | 10 e 20 × In | 160 a 320 A | Transformadores, máquinas de solda, motores grandes |
Abaixo dessa faixa, o disjuntor depende do bimetal e pode levar segundos ou minutos. Acima, abre bem antes de um décimo de segundo, normalmente em poucos milissegundos. Dentro da faixa, depende de cada unidade.
No Brasil ainda há muitos quadros com disjuntores padrão NEMA (os pretos, de encaixe), que não trazem a curva B ou C marcada. Os disjuntores DIN, de trilho, seguem a NBR NM 60898 e são o padrão em instalações novas.
Por que a curva importa: partida e corrente de curto
Muitas cargas puxam um pico de corrente ao ligar: a partida de um motor, a magnetização de um transformador, a carga dos capacitores de drivers de LED. Um disjuntor curva B pode tomar esse pico por um curto e desarmar a cada partida. Esse é o principal motivo para escolher C.
Mas uma curva mais alta tem um preço. Para desarmar na hora, o disjuntor precisa de uma corrente de falta maior, e essa corrente é limitada pela impedância de todo o laço: a rede, o cabo até o ponto da falta e a volta. É a impedância do percurso da corrente de falta, Zs. A NBR 5410 fixa, no esquema TN, tempos máximos de seccionamento que dependem da tensão, frações de segundo para circuitos terminais. O jeito mais simples de cumpri-los é o disparador magnético, então Zs precisa ser pequena o bastante para a corrente chegar ao topo da faixa. Em 127 V, isso dá:
| Disjuntor | Corrente para disparo instantâneo garantido | Maior Zs (127 V ÷ essa corrente) |
|---|---|---|
| B16 | 80 A | cerca de 1,6 Ω |
| C16 | 160 A | cerca de 0,8 Ω |
| B10 | 50 A | cerca de 2,5 Ω |
| C10 | 100 A | cerca de 1,3 Ω |
Em 220 V os valores crescem na mesma proporção (B16, cerca de 2,75 Ω). Na verificação real ainda se desconta o erro do instrumento e o aquecimento dos condutores, então o valor medido precisa ter folga. A ideia é a mesma: um cabo longo e fino num disjuntor curva C pode nunca desarmar instantaneamente numa falta à terra. Por isso B é o padrão em residências, e C se escolhe por um motivo.
No esquema TT a corrente de falta costuma ser pequena demais para qualquer disjuntor, e quem desliga é o DR. Os esquemas de aterramento são o tema do próximo artigo desta série.

A mesma falta à terra no fim de 80 m de cabo de 1,5 mm², cerca de 90 a 100 A. Isso passa do limiar de disparo instantâneo de um B16, que desarma em milissegundos; um C16 precisa de mais e espera o disparador térmico, quase um segundo.
Por que o disjuntor desarma
- Sobrecarga: aparelhos demais num circuito. Desarma depois de segundos ou minutos, e o disjuntor pode ficar morno.
- Curto-circuito: fase encostando no neutro ou numa parte metálica aterrada. Desarma na hora, muitas vezes com um estalo.
- Partida: desarma só no momento de ligar algo, tipicamente um motor ou um grupo grande de luminárias num curva B.
- Um aparelho com defeito: desarma toda vez que um aparelho específico é ligado.
Por que ele não desarma quando deveria
Esse é o caso mais perigoso:
- O disjuntor é maior do que o cabo aguenta. Um disjuntor grande demais num cabo fino deixa o cabo conduzir mais do que deveria por horas. O cabo esquenta, a isolação envelhece e um dia falha. Trocar o disjuntor “que vive desarmando” por um maior, sem trocar o cabo, é um erro clássico e perigoso, principalmente em circuitos de chuveiro.
- A impedância do laço é alta demais para a curva. Numa falta à terra, a carcaça fica energizada por segundos em vez de milissegundos.
- O disjuntor está no neutro em vez da fase. Ele desliga o circuito, mas tudo depois dele continua energizado.
A NBR 5410 fixa seções mínimas de 1,5 mm² para iluminação e 2,5 mm² para circuitos de tomadas; a seção certa para cada disjuntor depende da maneira de instalar e do agrupamento dos cabos. Dimensionar isso é trabalho do projetista, e a verificação final da instalação confirma.
Teste na tela
No WireWhy cada disjuntor tem a configuração de curva B, C ou D, e a simulação usa as faixas da IEC 60898-1 (considera o meio de cada faixa, então um disjuntor real pode atuar em qualquer ponto dela). Ligue um aquecedor num B16 e acrescente outro para ver o desarme por sobrecarga depois do tempo certo; ponha uma falta à terra no fim de um cabo longo e compare B16 com C16; coloque um disjuntor de 32 A num cabo de 1,5 mm² com uma carga pesada e veja o cabo superaquecer enquanto o disjuntor segura.
Abra o WireWhy em wirewhy.com/pt-br e veja qual disjuntor desarma, e quando. Sobre o dispositivo que protege pessoas, e não cabos, leia Por que o DR desarma?